Vivemos em um tempo onde a sensação de liberdade é, ironicamente, o nosso maior sistema de controle. Olhamos para o lado e vemos serviços essenciais — da água que bebemos ao correio que entrega nossas memórias — sendo fatiados e vendidos sob a promessa de uma eficiência que raramente chega à ponta final. Mas o que quase não se discute é como essa "ineficiência do Estado" é, muitas vezes, um projeto de engenharia.
O roteiro é repetitivo, mas eficaz: primeiro, retira-se o investimento e o fôlego da empresa pública. O serviço piora, a fila aumenta, e o cidadão, já exausto por uma rotina de sobrevivência, passa a desejar a venda daquilo que é seu. É a síndrome da rã fervida. Não percebemos que estamos perdendo patrimônio porque a temperatura sobe grau a grau, camuflada por uma retórica política que domina os meios de comunicação e simplifica problemas complexos em frases de efeito.
Essa "limpeza" do público para o privado não visa a universalização, mas o lucro imediato. Grupos de capital transnacional, após exaurirem mercados em países desenvolvidos — que hoje já fazem o caminho de volta para a reestatização ao perceberem o erro — buscam novas fronteiras. Eles exportam modelos que já falharam, vendendo-os como modernidade para nações onde o ensino foi sucateado para não formar cidadãos, mas sim engrenagens que não questionam quem segura a alavanca.
E agora, temos um novo carcereiro: o algoritmo. As Big Techs não apenas transmitem a informação; elas moldam o que sentimos. Em uma era de pós-verdade, o debate técnico sobre logística ou saneamento morre na praia da polarização. Enquanto brigamos por cores partidárias nas redes sociais, as instituições — Parlamento, Judiciário e Executivo — operam em um sistema de castas e servidão, onde o representante do povo deve mais ao dono do seu partido do que ao eleitor que o colocou lá.
A mudança parece impossível porque o sistema aprendeu a se auto-sustentar. O controle não precisa mais de repressão policial constante (embora ela esteja lá, pronta para agir se a corda esticar); ele conta com a nossa própria apatia. Criamos uma sociedade onde quem tenta "furar a bolha" e buscar alternativas, como pedagogias que libertam o pensamento ou modelos de gestão comunitária, é ridicularizado pelos seus iguais.
Ter esperança nesse cenário é um ato de resistência. Não é uma esperança ingênua de que tudo mudará amanhã, mas a compreensão de que a consciência é o primeiro passo para a ruptura. Questionar o que se lê, entender a quem interessa o nosso ódio e proteger a nossa capacidade analítica do bombardeio digital são as pequenas sementes de uma mudança que, talvez, não vejamos hoje, mas que é a única forma de garantir que o coletivo não seja totalmente devorado pelo privado.
O sistema quer que você desista. Continuar questionando é a única forma de não ser apenas mais um dado processado por eles.